O que é isso, afinal?

O que é isso, afinal?
Imagem ilustrativa/O que é isso, afinal.

O que é isso, afinal?

A definição oficial vem da OMT — Organização Mundial do Turismo, o braço da ONU (Organização das Nações Unidas) que cuida do assunto no planeta. Para ela, turismo sustentável é aquele que atende às necessidades dos turistas de hoje e das regiões que os recebem, protegendo as oportunidades para  o  futuro. Em outras palavras: satisfazer o presente sem roubar o futuro.

A ideia não é nova. Ela vem do Relatório Brundtland, de 1987 aquele documento que praticamente inventou o termo “desenvolvimento sustentável” e que, décadas depois, continua sendo a bíblia do setor.

Na prática, sustentabilidade no turismo se apoia em três pilares pense como um tripé: tire uma perna e o negócio inteiro despenca:

  • Ambiental: proteger ecossistemas, economizar água e energia, reduzir lixo.
  • Social: beneficiar quem mora no destino, respeitar a cultura local, gerar emprego digno.
  • Econômico: gerar renda de forma duradoura para o turista, para o empresário e, principalmente, para a

E por que isso importa tanto hoje? Porque o turismo responde por cerca de 5% das emissões globais de gases de efeito estufa, segundo o Cambridge Institute for Sustainability Leadership. Cinco por cento pode não parecer muito, mas é mais do que o setor aéreo inteiro. E, como levantamentos recentes apontam, a esmagadora maioria dos brasileiros já prefere destinos com práticas responsáveis. Ou seja: sustentabilidade deixou de ser diferencial e virou critério de escolha. Quem não embarcar, fica para trás.

Beleza, e o que eu faço na prática?

Cada elo da cadeia tem seu papel. Nada de esperar que o outro faça todo mundo pode começar hoje:

Na hospedagem: reuso de toalhas, sensores de presença, lâmpadas LED, captação de chuva, coleta seletiva e, o mais importante, comprar de fornecedores locais. Um exemplo que impressiona: a rede Hilton, usando a tecnologia da Winnow, que mede o desperdício com inteligência artificial, reduziu 26% do desperdício de alimentos em 2025. Vinte e seis por cento de comida que deixou de ir para o lixo. Não é bonito?

Nas agências e operadoras: oferecer roteiros com menor pegada de carbono, priorizar parceiros certificados e esse é o pulo do gato educar o viajante. Quem vende a viagem também vende a responsabilidade que vem junto.

No transporte: incentivar ônibus, bicicleta e caminhada. Copenhague transformou a bicicleta em atração turística e é referência mundial. Se a capital dinamarquesa conseguiu, por que a sua cidade não tentaria?

Em eventos: credencial digital em vez de papel, copo reutilizável, catering com produtos locais e da estação. Detalhe que ninguém vê, mas que o planeta agradece.

Em destinos: definir e respeitar a capacidade de carga que é o limite de visitantes que um lugar aguenta sem se degradar. Bonito, no Mato Grosso do Sul, virou referência mundial controlando o número de visitantes por dia. Já o Butão, no Himalaia, adota a política de “alto valor, baixo impacto”: poucos turistas, mas que pagam bem e respeitam muito. Resultado: um dos destinos mais preservados do planeta.

Mas como saber se está funcionando?

Aqui vai uma verdade que dói: o que não se mede, não se gerencia. Sem números, sustentabilidade vira discurso bonito de palestra.

A boa notícia é que medir não exige doutorado. Por exemplo:

  • Ambientais: consumo de água por hóspede por noite, consumo de energia, porcentagem de resíduos reciclados, balneabilidade das
  • Sociais: quantos empregos são ocupados por moradores locais, se a comunidade está satisfeita com o turismo, quanto se investe em capacitação.
  • Econômicos: quanto o turista gasta em média, quantos dias fica, quanto desse dinheiro fica no

Para quem quer ir mais fundo, existe o GSTC Global Sustainable Tourism Council, o conselho mundial que define os padrões globais de turismo sustentável. Criado em 2007 com apoio do PNUMA (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente) e da própria OMT, ele organiza os critérios em quatro pilares: gestão sustentável, benefícios socioeconômicos, preservação cultural e proteção ambiental.

E há ainda as certificações, como Green Key e Travelife, que funcionam como um selo de qualidade verde e que hoje abrem portas com viajantes conscientes e investidores. Vale lembrar também do ESG sigla em inglês para Ambiental, Social e Governança, o conjunto de critérios que investidores usam para decidir onde colocar dinheiro. Turismo sem ESG? Sorte na captação de recursos.

Como colocar em prática sem pirar

Não precisa virar um guru da sustentabilidade da noite para o dia. O caminho é gradual, e dá para começar com seis passos:

  1. Diagnostique: veja onde você mais gasta água, energia e dinheiro. Onde “vaza” mais, é onde há mais
  2. Priorize: escolha duas ou três frentes de maior impacto. Menos é
  3. Defina metas: metas inteligentes no jargão técnico, metas SMART (específicas, mensuráveis, atingíveis, relevantes e com prazo). Exemplo: “reduzir 30% do consumo de água por hóspede em 12 meses”.
  4. Engaje as pessoas: capacite a equipe, envolva fornecedores e a comunidade. Sustentabilidade é cultura, não
  5. Meça e ajuste: colete os indicadores, compare com as metas, corrija a rota. É o ciclo PDCA Planejar, Executar, Verificar e
  6. Comunique: conte os resultados com transparência. Quem mostra o que faz ganha confiança e clientes.

Os pecados capitais (erros para evitar)

Se você quer mesmo fazer a diferença, fuja destes:

  • Greenwashing o ato de vender sustentabilidade que não existe na prática. É o pecado mais feio do setor, e o público percebe rápido.
  • Focar só no ambiental esquecer que o pilar social (a comunidade) e o econômico (a renda que fica no destino) são tão importantes
  • Não medir nada porque sem dados, você está navegando no
  • Copiar o vizinho o que funcionou em Cancún pode destruir sua cidade. Cada destino tem sua
  • Excluir a comunidade sustentabilidade imposta “de cima para baixo” não dura. Ela precisa nascer de baixo para
Dimensão Ações Práticas Métricas/Indicadores Prioridade
 

 

Ambiental

 

Reduzir água/energia, coleta seletiva, energia renovável, lixo zero

Consumo água/energia por hóspede, % resíduos reciclados, pegada de carbono  

Alta (impacto imediato)

 

 

Social

Capacitar mão de obra local, turismo de base comunitária, compras locais  

% empregos locais, satisfação da comunidade, investimento em capacitação

 

Alta (sustenta o destino)

 

 

Econômico

Reter renda no destino, diversificar oferta, combater sazonalidade  

Gasto médio, permanência média, % compras locais, distribuição de renda

 

Média (longo prazo)

 

 

 

Gestão

Governança compartilhada, metas SMART,

monitoramento, certificações

 

KPIs do destino, relatórios ESG, certificações (Green Key, Travelife)

 

 

Alta (base de tudo)

Para fechar

Turismo sustentável não é sobre abrir mão de viajar. É sobre viajar melhor com consciência de que cada escolha nossa, do hotel ao prato de comida, tem efeito em alguém e em algum lugar. Não é sacrifício; é inteligência.

A próxima vez que você estiver escolhendo um destino, uma hospedagem ou um roteiro, faça a pergunta que vale ouro: este lugar ficará melhor ou pior depois da minha visita?

Se a resposta for “melhor”, embarque. O planeta e as próximas gerações de viajantes agradecem.

Texto: Marcelo Polleto