O GIGANTE INVISÍVEL: POR QUE O TURISMO É GRANDE NA ECONOMIA E PEQUENO NA POLÍTICA BRASILEIRA

O GIGANTE INVISÍVEL POR QUE O TURISMO É GRANDE NA ECONOMIA E PEQUENO NA POLÍTICA BRASILEIRA
O GIGANTE INVISÍVEL POR QUE O TURISMO É GRANDE NA ECONOMIA E PEQUENO NA POLÍTICA BRASILEIRA

O GIGANTE INVISÍVEL: POR QUE O TURISMO É GRANDE NA ECONOMIA E PEQUENO NA POLÍTICA BRASILEIRA

Um setor que movimenta até 8,1% do PIB e sustenta 8,3 milhões de empregos segue tratado como coadjuvante nas decisões de governo. Entender esse paradoxo é o primeiro passo para mudá-lo.

24 de setembro de 2026

O paradoxo na mesa de decisões

Se o turismo brasileiro fosse uma única corporação privada, ela figuraria com folga entre os três maiores conglomerados do continente sul-americano. Em 2025, o fluxo turístico consolidou uma marca histórica incontestável: foram 9,3 milhões de turistas internacionais cruzando as nossas fronteiras — superando a meta oficial do governo federal em expressivos 37% —, gerando uma injeção cambial de US$ 7,865 bilhões capturada diretamente pelo Banco Central. Ao todo, a cadeia ampla de viagens e hospitalidade movimentou nada menos que US$ 167,6 bilhões na economia nacional, sustentando mais de 8,3 milhões de postos de trabalho formais e informais, de acordo com o World Travel and Tourism Council.

No entanto, cruze a Esplanada dos Ministérios e observe a montagem do poder em Brasília. Quando o orçamento público é disputado, quando as grandes reformas tributárias são formatadas ou quando as prioridades eleitorais são redigidas em palanque, esse mesmo gigante desaparece do mapa. O turismo brasileiro é um colosso dentro das contas econômicas, mas senta na mesa das grandes decisões políticas do país com a relevância e o peso institucional de uma secretaria de apoio. Tratamos uma das indústrias mais dinâmicas e distributivas da atualidade com o desdém burocrático reservado a atividades meramente recreativas.

Essa invisibilidade cobra um preço desproporcional. Enquanto economias globais concorrentes utilizam o setor como escudo contra crises de balança de pagamentos e instrumento de atração de capital produtivo, o Brasil opera sua máquina turística sob improviso constante. Compreender as engrenagens desse paradoxo não é um exercício retórico; é o passo prioritário para exigir o espaço executivo que o turismo conquistou por direito próprio nas planilhas de emprego e renda.

O número que você usa decide a prioridade que você recebe

Por que um setor que sustenta mais de oito milhões de famílias ainda escuta de economistas e tecnocratas que é uma atividade “marginal”? A resposta começa em uma distorção conceitual: a clássica analogia do iceberg econômico. Quando o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística mensura as chamadas Atividades Características do Turismo, a lente adotada é excessivamente restritiva. O IBGE contabiliza de forma direta basicamente a hotelaria formal, os operadores de viagens e o transporte de passageiros explicitamente rotulado como turístico. O resultado dessa medição direta encolhe o setor para modestos 2,5% do PIB.

O problema é que o gestor público, ao abrir a planilha de dotação orçamentária, enxerga apenas esses 2,5% e conclui: o turismo é pequeno, logo seu orçamento deve ser irrelevante. Trata-se de uma miopia perversa. Sob a linha da água, o impacto total do setor — mensurado internacionalmente pela metodologia das Contas Satélites da ONU Turismo e referendado pelas análises da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo — atinge entre 7,7% e 8,1% do PIB.

A diferença entre os dois números é todo o mundo real que mantém as cidades funcionando. A métrica ampla incorpora o que o visitante consome no restaurante de esquina, a corrida no aplicativo ou no táxi, a compra de vestuário de praia, o pagamento da atração cultural e a longa cadeia de fornecedores da construção civil, têxtil, alimentícia e de tecnologia que atende aos hotéis. Mais importante ainda: incorpora o efeito induzido, que é o salário pago ao garçom e à camareira circulando na padaria do bairro periférico, no supermercado e na farmácia. O turismo não é a ponta de gelo de 2,5%; o turismo é o bloco maciço de 8,1% que impede o desemprego de explodir nas cidades médias e litorâneas.

Turismo não é setor, é sistema — e isso é um problema

A economia tradicional costuma raciocinar por silos verticais: a indústria automobilística monta o carro, a siderúrgica funde o aço, a agricultura colhe a safra. O turismo não obedece a essa lógica linear. O turismo não é um setor estanque; ele é uma teia transversal, um arranjo sistêmico que irriga dezenas de segmentos econômicos em um único movimento de consumo. O desembolso de uma família em férias começa na aviação comercial, migra para a hospedagem, irriga o setor de bares, passa pelo pequeno comércio de artesanato, financia shows locais e gera arrecadação tributária direta para municípios que não possuem nenhuma fábrica em seu perímetro.

Essa força distributiva se reflete na composição societária da atividade. Conforme dados da Confederação das Associações Comerciais e Empresariais do Brasil, cerca de 90% dos empregos gerados na cadeia do turismo pertencem a micro e pequenas empresas. O setor é formado majoritariamente por 32% de trabalhadores por conta própria e 41% atuando em MPEs, injetando anualmente mais de R$ 150 bilhões de forma imediata no comércio das cidades, segundo o mapeamento da Confederação Nacional de Municípios. O turismo entrega renda na mão de quem mais precisa: o barqueiro, o bugueiro, o dono da pousada familiar, a cozinheira do quiosque e a bordadeira tradicional.

Vejamos o laboratório do Nordeste, onde a transversalidade ganha proporções estruturantes. Pelos dados da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste, o turismo responde por quase 10% de todo o PIB regional e sustenta 433,3 mil postos formais de emprego. Na Bahia, esse fenômeno atinge o auge de rendimento: o estado acumula três anos consecutivos crescendo acima da média econômica brasileira, registrando uma expansão de 7,4% em 2025. Consolidou-se como o estado mais vendido pelas operadoras de viagens pelo segundo ano consecutivo, converteu-se na principal porta de entrada internacional da região com 211 mil turistas estrangeiros desembarcados em 2025 e viu a sua capital movimentar impressionantes R$ 7,6 bilhões apenas durante o ciclo de alta temporada de verão.

Eis o nó da questão: a mesma hipercapilaridade que transforma o turismo em uma máquina formidável de distribuição de renda é a característica exata que o enfraquece politicamente. Como o capital do setor está fragmentado em milhares de pequenos negócios e profissionais autônomos, ele não se concentra em poucas sedes industriais capazes de financiar gabinetes, estruturar frentes parlamentares coesas ou pressionar diretamente os gabinetes ministeriais.

Sete motivos para o turismo ser invisível em Brasília

A irrelevância política do turismo no centro do poder não é obra do acaso; é fruto de um desenho institucional e estrutural moldado ao longo de décadas. Podemos sintetizar as razões dessa invisibilidade em sete gargalos essenciais:

  1. A atividade não tem dono: As alavancas reais que determinam a vida ou a morte da cadeia turística não estão sob a caneta do Ministério do Turismo. O preço da passagem depende do Ministério de Portos e Aeroportos; o fluxo de crédito depende da Fazenda e do Banco Central; o custo da aviação depende do ICMS fixado pelos governadores; e os licenciamentos de resorts dependem do Meio Ambiente. O turismo é impactado por todos, mas chefiado formalmente por quase ninguém.
  2. Orçamento crônico de secretaria: O Ministério do Turismo detém historicamente uma das dotações mais irrisórias de toda a Esplanada dos Ministérios. O Fundo Geral de Turismo, principal mecanismo federal de financiamento do setor, disponibilizou modestos R$ 826 milhões para atendimento em todo o território nacional em 2026 — um volume financeiro incapaz de suportar sequer duas grandes concessões de infraestrutura rodoviária ou aeroportuária.
  3. O IBGE usa a lente míope: Ao manter o foco prioritário na mensuração restrita de 2,5% do PIB, o Estado brasileiro sabota a si mesmo. Sem uma Conta Satélite do Turismo plenamente institucionalizada como índice oficial de negociação macroeconômica, os técnicos governamentais continuarão tratando a pasta como um apêndice recreativo de baixo valor agregado.
  4. Pulverização sem voz única: Noventa por cento do setor é composto por microempresários, proprietários de pousadas e prestadores de serviços isolados. Enquanto o agronegócio fala com uma bancada monolítica e a indústria automobilística negocia em bloco fechado, o turismo historicamente se divide em dezenas de pequenas entidades com reivindicações dispersas e incapazes de falar uma língua única perante o Congresso.
  5. Retorno eleitoral difuso: No cálculo pragmático da política tradicional, uma ponte de concreto ou dez quilômetros de asfalto rendem palanque eleitoral visível, corte de fita e votos imediatos. O investimento em promoção turística, qualificação profissional e receptividade demora anos para maturar e distribui seus ganhos por centenas de atores anônimos, tornando-se pouco atraente para quem pensa apenas no próximo mandato de quatro anos.
  6. Ausência de um colapso dramático: Quando a indústria metalúrgica entra em crise, mil operários marcham em frente aos portões da fábrica e os jornais colocam o evento na manchete. Quando o turismo colapsa — como na recessão profunda de 2015-2016 ou na paralisia pandêmica —, a quebra ocorre em absoluto silêncio: é uma pousada que fecha discretamente na praia, um guia que passa a rodar aplicativo e um quiosque que não reabre, sem qualquer imagem de comoção nacional que force a intervenção do Estado.
  7. Instabilidade institucional permanente: O Ministério do Turismo só ganhou existência autônoma em 2003, acumulando uma trajetória marcada por trocas frequentes de comando técnico por conveniências partidárias de ocasião. Não por acaso, sempre que surge um debate sobre reforma administrativa ou corte de despesas, a pasta figura como o primeiro ministério a ser rebaixado, fundido ou sumariamente extinto.

Quem paga a conta dessa miopia

O resultado palpável dessa ausência política é um subinvestimento contínuo e estrutural. O Brasil ostenta um dos maiores patrimônios naturais e culturais do planeta, mas opera campanhas de promoção externa com orçamentos incomparavelmente menores do que vizinhos como o México e a Colômbia, ou referências globais consolidadas como a Espanha. Nossos aeroportos regionais e malhas rodoviárias que conectam zonas turísticas estratégicas continuam dependendo de cronogramas lentos de concessões que se arrastam há décadas.

Esse vácuo da política pública federal empurra os estados para a trincheira perigosa da guerra fiscal. Para viabilizar a atratividade de rotas, governos como o da Bahia são forçados a realizar renúncias crônicas de receita, reduzindo alíquotas de ICMS do combustível de aviação ou concedendo isenções para a fixação de hubs internacionais. É o poder estadual usando suas próprias reservas para remediar a carência de uma política de Estado unificada de conectividade aérea.

Ao final do dia, a constatação econômica é desconcertante: o turismo brasileiro cresce apesar do Estado — nunca graças a ele. Quando o câmbio favorece e o país vive períodos de estabilidade institucional, os recordes de visitantes e divisas explodem pelo mérito exclusivo de empresários e trabalhadores resilientes. No instante em que os ventos macroeconômicos viram, o setor se vê desprovido de fundos soberanos de amparo, de garantias fiscais sólidas e de segurança jurídica para os seus investimentos de longo prazo.

O que fazer, na prática

Romper esse ciclo vicioso não é uma tarefa para técnicos de gabinete; é uma manobra de estratégia e disputa de poder político. Se o trade turístico deseja ser respeitado no mesmo nível de outras cadeias pesadas, precisa articular cinco passos concretos e inegociáveis:

  1. Unificar a voz do setor: Consolidar os movimentos transversais em uma frente nacional intransigente, transformando agendas como a Carta das 8 Prioridades do turismo e eventos em um documento de compromisso obrigatório para o Executivo e o Legislativo.
  2. Corrigir a estatística pública: Exigir que os órgãos econômicos do governo adotem a Conta Satélite do Turismo e assumam institucionalmente o impacto de 7,7% a 8,1% do PIB em todos os relatórios da Fazenda, encerrando a ilusão burocrática dos 2,5%.
  3. Vender o voto e o peso eleitoral do turismo: Demonstrar com dados cartográficos que a renda do turismo não está restrita a cartões-postais da orla, mas sustenta a economia de centenas de municípios do interior profundo, constituindo uma força eleitoral descentralizada e decisiva.
  4. Cobrar fontes reais de financiamento: Rejeitar promessas genéricas de campanha eleitoral que apenas exaltam as belezas do país, exigindo cronogramas orçamentários claros, regras desburocratizadas de acesso ao crédito e fundos garantidores para hotéis e operadoras.
  5. Blindar o ministério setorial: Defender a autonomia executiva do Ministério do Turismo contra o desmonte ministerial, garantindo que ele atue como uma câmara de coordenação intersetorial permanente entre aviação, segurança, infraestrutura e sustentabilidade ambiental.

O passo inadiável

O turismo brasileiro é, por definição empírica, um gigante econômico aprisionado em uma voz política sussurrada. A mesmíssima transversalidade que espalha a riqueza gerada pelos viajantes em cada botequim, cooperativa de van e feira artesanal é o fator estrutural que fragmenta a sua capacidade de pressionar as engrenagens de Brasília. Enquanto o setor aceitar ser tratado como uma pauta menor de entretenimento, continuará vulnerável às tesouradas orçamentárias e às crises cíclicas do país.

Transformar o turismo em prioridade de Estado não requer favores regulatórios, mas sim a cobrança proporcional ao tamanho da riqueza que ele deposita nos cofres da União todos os anos. Os recordes de 2025 provaram que o potencial de entrega é gigantesco. Resta agora ao setor assumir a maturidade política necessária para cobrar a fatura: enquanto o Brasil insistir em tratar o turismo com o orçamento e o prestígio de uma secretaria, continuará colhendo os frutos de um setor que prospera pelo heroísmo da sua gente — e não pela inteligência estratégica do seu governo.

por Marcelo Poletto
Consultor independente de desenvolvimento turístico

Nota: Fontes consultadas incluem WTTC, CNC, CNM, Sebrae/CACB, IBGE, Ministério do Turismo, Banco Central do Brasil, Sudene, BNB/ETENE e imprensa setorial especializada. Indicadores consolidados em 24 de setembro de 2026.